Confiar na Mudança

October 12, 2017
Ninguém gosta de mudanças, mas estas são quase sempre significado de progresso. Pessoalmente, alcancei o feito notável da mudança, daquelas drásticas, terríveis, que toda a gente teme. Em tempos detestei desmedidamente algo que se tornou fundamental ao meu espírito jubilante - o raio desta imponente indústria que é a moda.
Quando somos crianças está sempre tudo bem. E eu usava cargo pants, camisolas com patinhos e casacos amarelos a combinar e estava tudo bem. Não gostava de moda e não me queria envolver nas idas ao centro comercial ao fim-de-semana. E bufava, desesperada, sempre que tentava fugir a essa rotina e ficava com o meu pai à porta da loja.
Quando concluí o ensino básico a minha mãe lá entendeu que eu merecia uma mudança de visual e eu aceitei opinar. A minha primeira indumentária de uma loja teen foi umas calças chino azul-marinho e uma T-shirt vermelha com tachas - edginess, a vanguarda da moda nesse ano. Não tardei a tornar-me a diretora criativa do meu guarda-roupa (partilhando sempre um bocadinho dessa responsabilidade com a minha mãe, a quem ainda hoje recorro aquando da incerteza na hora de me saber vestir).
Poucos meses depois, numa aula de artes um professor pediu que desenhasse o corpo humano, proporcionalmente equilibrado, nunca substimando os detalhes. Embora eu sempre tenha sido uma aluna obediente ao longo de todos estes anos de escola, devo admitir que nesse dia os únicos detalhes que eu não subestimei foram os detalhes da textura do vestido com que decorei a personagem que desenhei. Não podia esperar muito e levei com uma nota Suficiente. Mas esse Suficiente valeu-me de tanto, não fosse eu ter percebido que queria ser designer de moda (ou estilista, como se dizia naquela altura). Evoluí de Bravo para Vogue e desenhei meia dúzia de coleções. Mas as aulas de Português eram sempre tão ou mais produtivas do que as de artes, e era extraordinariamente prazeroso escrever. Claramente acabei por mudar de ideias, nesta fase já queria estudar jornalismo numa universidade Inglesa e depois mudar-me para Nova Iorque e viver lá a minha carreira. E sempre que digo isto é inevitável pensar na colossal quantidade de vezes que já o disse e pensei. Criei um, dois, três blogs, e devorava revistas, vídeos de desfiles e filmes acerca desta indústria.
Enquanto ia crescendo comecei a perceber que sonhar é muito difícil mas que a vida não me ia proporcionar a sorte de ir para Inglaterra estudar, e jamais teria a possibilidade de estudar moda em Portugal, e mesmo que a tivesse, não tinha futuro, assim, estava de volta ao mesmo. Mentalizei-me que isto não era para mim. E estava tão enganada, oh se estava. Um ano antes de acabar o Secundário ignorei todas as vozes que me diziam que não era possível. As coisas só não são possíveis se nós não tentarmos nada. Estudei algumas empresas que elaboram a candidatura a universidades estrangeiras e com a maior das minhas sortes conheci a OkEstudante, que me acompanhou em todo o processo até à grande mudança.
Tenho a felicidade de ter uma família sentada na fila da frente a aplaudir e a apoiar (quando merecido) cada passo que dou. Ter-me mudado para o Reino Unido foi só mais um feito alvo de todo o apoio imaginável, embora seja uma mudança difícil, ousada. É, efetivamente, um curso arriscado, uma indústria nada premeditada, onde ser bom não chega. Mas querer é tudo, e eu queria. E vim. E cada vez desejo mais.

O meu pai diz que sou do Mundo.
E o Mundo,
Esse um dia também será meu.



09.09.17


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