Como é estudar no Reino Unido?

November 21, 2017


Antes de vir estudar para o Reino Unido passei os últimos anos a explorar sozinha a melhor forma de organizar-me para a tão esperada vinda. Não sabia por onde começar, era demasiada informação - escolher as universidades onde as disciplinas abordassem tudo aquilo que eu procurava, os mil e um documentos traduzidos oficialmente que eram exigidos, a procura de casa que tanto me assustava. Foram meses e meses de pesquisa. Ironia do destino, ou não, no dia antes do voo enquanto revirava as minhas gavetas em forma de revisão do que faltaria, encontrei o caderno onde deixei cada parágrafo que reti. Deu-me vontade de rir. Todos os meus problemas foram sintetizados quando descobri que existem empresas que fazem quase tudo por nós.
Passo a explicar.
É realmente difícil fazermos o processo de candidatura a uma universidade inglesa sozinhos. Não digo que seja impossível, porque existe imensa gente que o faz, mas tem a sua dificuldade. É preciso jogo de cintura para não falhar nenhuma das etapas, e se isto acontecer, poderemos dar todo o trabalho como perdido.
Quando estava no 11º ano já fervia com a pressão de encontrar a universidade ideal, e foi numa feira de cursos na escola que eu soube da existência de empresas que nos poupam algumas dores de cabeça. Tenho conhecimento da TakeOff que faz candidaturas para vários países, e a OK Estudante, mais direcionada para o Reino Unido. Escolhi a segunda por aconselhamento e porque, realmente, era direcionada para aquilo que eu procurava.
Relativamente ao processo, foi bem mais simples do que sozinha. Antes de entrar no 12º ano marquei uma reunião com eles (o escritório é no Porto, perto do Teatro de S. João) e expliquei que queria estudar moda, que já tinha visto algumas universidades e cursos, e que estava dividida entre Fashion Design, Fashion Styling e Fashion Journalism (isto porque, embora jornalismo fosse o meu sonho, tenho outras paixões, e o medo de arriscar escrever numa língua diferente assustava-me). A minha student adviser sugeriu-me as melhores opções, os melhores cursos, aqueles onde era mais difícil entrar, as universidades que exigiam uma média mais alta ou um portfolio, que por sinal eu não tinha.
E descobri uma coisa que mudou completamente o jogo, e que eu não poderia deixar de mencionar claro - as propinas financiadas. As propinas nas universidades inglesas são completamente financiadas para os estudantes da Europa. Isto significa que só irás pagar o teu curso quando começares a trabalhar e, somente se atingires os valores de salário estipulados pelo governo inglês. Se, eventualmente, estiveres de baixa não tens de pagar nesses meses e se tiveres um infeliz acidente que não te permita trabalhar mais, a tua dívida é saldada. Isto significa que o estado garante acima de tudo que tens dinheiro para ti, em primeiro lugar. E não, não precisas de trabalhar no Reino Unido, podes estar onde quiseres, desde que todos os anos envies um registo do teu ordenado desse ano.
Relativamente ao processo da Ok Estudante, depois de escolher a universidade e o curso ia enviando por email os documentos que eles me solicitavam. Coisas simples como documentos pedidos na escola. Eles encarregam-se da tradução. Precisei de pedir a dois professores meus uma carta de recomendação e escrever o meu Personal Statement - uma carta que escrevemos sobre nós onde essencialmente promovemos os nossos melhores aspetos. O Personal Statement é a chave para a universidade nos aceitar, caso não seja pedido o portfolio, e por isso a pressão para escrever algo brilhante é alguma. Felizmente a Ok Estudante faz todos os meses workshops para os estudantes que estão quase a embarcar na aventura - sempre em inglês, abordam-se temas como “Como gerir o meu dinheiro”, “Como arranjar emprego” e até mesmo “Como escrever o meu Personal Statement”. Eu, em estado esponja, fazia por não faltar a nenhum, e absorvia todas as informações que me eram dadas (e que úteis que foram!)
As candidaturas terminam no início de Janeiro, a diretora do meu curso entrevistou-me por chamada e no final de Fevereiro do 12º ano já tinha uma resposta positiva da Universidade. No entanto, é sempre necessário concluir o Secundário para receber a resposta definitiva.
É de sublinhar que as médias, ao contrário do que se pensa, não são exigentes na maioria das universidades - o único requisito que me impuseram quanto a médias foi tirar média de 14 ou acima à disciplina de Inglês. Se isto não acontecesse teria de fazer um Foundation Year (ano 0) para aprender as bases do curso, ou seja, iria para a Universidade na mesma. Em Junho deu-se o evento Pre Departure Orientation no Porto, onde a Ok Estudante reúne todos os estudantes que estão na mesma situação que nós, e nos separa por universidades, de modo a que fiquemos a conhecer muita gente. O que já acontece durante o ano todo nos workshops e com a app que eles nos fornecem para falarmos com estudantes de anos anteriores e pessoas que vão para a mesma universidades e cursos. Contudo, todo este serviço que nos é prestado tem um custo, que pode ser pago em duas prestações.


Apesar de em dados momentos ter ficado menos contente com o apoio que me deram, vou sempre recomendar que recorram à ajuda de alguém experiente nisto. São muitos documentos exigidos, muitos termos em inglês que não têm tradução e muitas equivalências diferentes das portuguesas.
Posso exemplificar com o simples facto de, em Maio ter enviado para o Student Finance o meu formulário preenchido a solicitar o financiamento das propinas E nunca mais obtive uma resposta. Mas iria continuar a esperar por uma resposta, que nunca mais chegaria porque me esqueci de uma assinatura. Felizmente socorri-me da minha student adviser que me ajudou a solucionar o problema. De outra forma seria inconcebível sustentar um curso que, como a maioria dos cursos aqui, tem um custo de 9250£ por ano, algo como 10.400€ anuais.
Agora que explicado todo o processo burocrático da candidatura, o resto.
Procurar casa foi a situação mais complicada visto que é algo que temos de fazer sozinhos. Passei o Verão todo à procura do sítio ideal. Procurei nos sites da universidade, no Rightmove, no Gumtree, no Zoopla e no SpareRoom. Geralmente aqui no Reino Unido os estudantes optam por 3 situações diferentes: Halls, House Sharing ou Renting. Excluí de imediato os Halls porque apesar das condições serem fantásticas as mensalidades são exorbitantes e pagas semestralmente, o que faz com que a conta pareça bem maior,
House Sharing é a opção normalmente adotada pela maioria das pessoas, principalmente pelos emigrantes e estudantes estrangeiros, tendo em conta os custos mais reduzidos da renda e as contas partilhadas.
E o Renting, que é quase tão díficil quanto os Halls visto que a maioria dos proprietários exige que tenhamos um fiador inglês (o que me parece raro para alguém que nunca cá viveu/não conhece ninguém) ou em segunda opção, que se paguem todos os meses do contrato de uma só vez, o que é bastante similar com as residências universitárias.
Infelizmente não tive outra opção senão optar pelo House Sharing para o primeiro ano. Foi muito difícil chegar a esta solução visto que estar sentada num sofá a tentar arranjar uma casa noutro país exige que confiemos de imediato na pessoa com quem estamos a falar do outro lado, que nos pede de antemão um depósito do primeiro mês de renda. É portanto um tiro no escuro, que tem que ser muito bem ponderado antes de ser feito, mas que eu arrisquei, menos de uma semana antes de me mudar, e já em ato de desespero, assustada por não ter onde ficar no dia em que chegasse. Felizmente o proprietário da casa onde vivo foi uma pessoa de muita confiança, depositou muita confiança em mim também e por isso pude ver a casa e pagar em mão no dia.
Não vivo de todo na melhor casa do mundo (no geral as casas inglesas são um 4/10), esta carpete na casa toda tira-me do sério, a casa de banho mais perto do quarto estar avariada é frustrante, a rua ser muito escura à noite por vezes faz-me ficar em casa, e partilhar casa com outras pessoas é desconfortável. Mas nada nesta aventura teria piada se não tivesse começado do 0. Não saíria vitoriosa se saísse do avião e tivesse alguém à minha espera, se chegasse a casa e não tivesse de andar 25 minutos para ir comprar as almofadas, os copos, talheres e os tachos. E voltasse para casa com 5 sacos em cada mão, enquanto a chuva me molhava os pés e lavava a alma.
No entanto, para o ano quero alugar um apartamento, até tenho acendido uma velinha e feito uma
rezinha para que todos os santos estejam do meu lado quando este contrato acabar.
Os primeiros dias foram dias de auto-descoberta. Até então não sabia o que era a responsabilidade de me levantar para ir fazer o jantar, ter de lavar a roupa, estendê-la, arrumar o quarto, procurar emprego, abrir conta no banco.
Sabia fazer tudo, é verdade, mas também admito que, quando em casa, pouco fazia. Tanto que, os meus pais ficaram surpreendidos pela minha perspicácia desde que me vi debaixo das saias deles.
A questão do emprego também será certamente algo que vos inquieta.
A oferta de emprego no Reino Unido é muita. Após terem o Nacional Insurance Number you’re ready to go (carta que vos permite trabalhar legalmente aqui, devem marcar uma entrevista através da linha telefónica deles e depois comparecer no Job Centre combinado)!
Geralmente a carta demora cerca de 4 semanas a chegar, após a entrevista. Mas nessa mesma é-vos fornecida uma carta provisória com a qual já podem começar a trabalhar.
O meu método para procurar emprego foi através da entrega de CV’s e online através do site Indeed (onde podem concluir que a oferta de emprego é vasta). Se são novos e querem vir para cá estudar não esperem um ordenado surreal e um emprego de sonho. Diz o meu pai que aqui temos de começar do zero, e eu confirmo.
Três dias depois de cá estar já tinha uma entrevista marcada, que perdi porque me atrasei.
Depois dessa oportunidade perdida senti uma onda de azar, que voltou a passar quando arranjei emprego numa loja de roupa de que gosto muito aqui em Inglaterra.
A verdade é que detestei trabalhar lá, o staff era um grupo de xenófobos que se achava superior por serem nativos. O ordenado era horrível e a sexta-feira era o dia mais triste da minha semana porque sabia que o fim-de-semana iria ser passado naquele inferno. Despedi-me. E nessa mesma semana tinha mais dois empregos, obviamente tinha de optar por um. Isto obviamente para mostrar que é suportável viver aqui. Irei sempre aconselhar a área da restauração pela cultura inglesa de deixar a gorjeta para o funcionário, eu decidi optar agora por essa área e não podia estar mais feliz! Normalmente neste país os estudantes não podem trabalhar mais do que 20 horas e o ordenado é atribuído por idades, sendo que alguém com 18 anos recebe algo como 5.85£ por hora. Mas há sempre as exceções à regra. E varia de caso para caso. Eu optei por trabalhar entre 25 e 30 horas por semana pelo facto de ter demasiado tempo livre, e prefiro estar ocupada do que estar em casa fechada. Em duas semanas recebo um ordenado mínimo português, num lugar onde se exige muito trabalho porque está sempre cheio de gente, mas onde é tão divertido trabalhar e o staff é incrível. Mas também conheço algumas pessoas que ainda não conseguiram arranjar emprego.
No que toca ao ordenado e custos de vida, aqui em quase todos os sítios pagam à semana. Eu recebo quinzenalmente. Em contrapartida recebo as gorjetas todos os dias, e é dinheiro que chega para me pagar os gastos do dia-a-dia.
A vida no geral não é cara. A comida é barata, similar aos supermercados portugueses. Os meus pais pagam-me a renda e ainda me dão dinheiro para a comida. Sei que nem toda a gente tem a mesma sorte, mas o facto das propinas serem financiadas também é uma ajuda enorme. Posso dizer que se ficar com este emprego, estou bem. E nunca pensei dizê-lo em Novembro, dois meses depois de me mudar. Mas não se iludam, porque a vida aqui é difícil, e exige muito esforço, físico sim, mas psicológico, imenso!
No que concerne à Universidade, tema-chave deste artigo devo primeiro explicar que não sou a melhor pessoa a fazer comparações às universidades portuguesas pelo facto de nunca me ter interessado por essas e por isso, devo admitir que não sei quase nada sobre como elas funcionam. Aqui não há praxe. Há uma Fresher’s Week - uma semana de introdução à vida diária (e noturna também) aos caloiros. Basicamente a Universidade apresenta os professores, as instalações, os professores dos cursos fazem atividades, visitas de estudo a locais relacionados com o curso em questão.. e a melhor parte: a Fresher’s Fayr - uma feira com todas as sociedades da Universidade e Associações da Cidade que estão envolvidas com jovens oferecem imensos descontos e freebies.
Logo nessa semana fui surpreendida com uma visita à exposição Balenciaga Shaping Fashion em Londres - BOOM! E uma photoshoot nos estúdios da Universidade, com equipamento profissional que me deixou de queixo caído. Há imensas salas e pisos da biblioteca equipados com iMacs com todo o tipo de programas que apoiam os diferentes cursos, e temos acesso a qualquer tipo de material que seja preciso, dentro e fora da Universidade. As instalações são incríveis, temos mesmo cafés e restaurantes que fazem parte da Universidade. Podemos contar com aconselhamento financeiro, aconselhamento psicológico, consultas de hipnoterapia, apoio à língua inglesa, entre tantas outras ajudas  que nos dão!
Tenho 9 horas de aulas por semana. Semanas em que tenho 45 minutos.
O primeiro ano não conta para a média do curso mas ainda assim fazemos os “exames” que se intitulam de Assessments. Quanto aos outros cursos não sei, mas posso dar o exemplo dos meus - à cadeira de Design Skills tenho de fazer uma revista, Language of Fashion tenho que escrever um artigo sobre um tema teórico de moda e fazer um portfolio de pesquisas e em The Fashion Writer tenho de escrever 3 artigos para uma revista.
Os assessments têm de ser enviados através de uma plataforma online, até à data e hora estipulada, sendo que basta passar uns segundos e já perdemos 40% da nota.
Os termos são parecidos com os portugueses, entro de férias na segunda semana de Dezembro e regresso no fim de Janeiro, as férias da Páscoa são mais pequenas, e termino o ano a 10 de Maio. As disciplinas mudam em Janeiro e o horário, consequentemente. Temos um monte de viagens que podemos fazer pelo curso, mas eu acredito que conseguimos viajar por um custo bem menor independentes.
A língua é sem dúvida a maior dificuldade. Acabei o Secundário com 18 mas sinto que não sei nada e não percebo nada aqui. O sotaque inglês é muito complicado de se entender, visto que se estiver a falar com pessoas de outros países em inglês percebo tudo! O meu curso tem uma dificuldade acrescida para mim na medida em que jornalismo é escrita e eu adoro escrever em português, e infelizmente perco muito o meu estilo de escrita aquando da tradução para inglês. Ainda assim retenho todos os skills, para que um dia os possa aplicar em Portugal!
Apesar disso, adoro o curso e adoro o mundo de oportunidades que aqui tenho e que aí não teria. Adoro o facto de ter constantemente hipóteses de me envolver no mercado ainda na Universidade, seja a escrever um artigo para a revista do centro comercial da cidade, a trabalhar para a revista do curso ou a fazer um estágio que me ajudará a preparar para o mercado de trabalho. E acontece o mesmo em qualquer área. Estamos expostos às oportunidades. E uma coisa posso garantir, acabaremos sempre o curso a saber fazer, porque as universidades britânicas investem imenso nisso - prática, prática, prática.
Apesar de ter optado por uma indústria diferente e que não há tanto em Portugal, há imensos cursos que existem aí também e ainda assim eu digo: venham! Só a experiência vale a pena! Acho que não a podem comparar a nada, nem mesmo a Erasmus. São três anos, é uma longa jornada, e é preciso coragem.
No meio disto tudo, considero-me sortuda por ter um namorado que embarcou nesta aventura comigo, que mudou de país pelo meu sonho! Não veio estudar, está a trabalhar. O Inglês para ele não é uma vitória, mas ainda assim no trabalho sai sempre vitorioso. E tem sido um apoio fundamental, uma presença constante ainda que o emprego faça dele ausente. No último post falei de mudanças e esta, sem dúvida, foi mais uma. Agora partilhamos tudo aquilo que nos une, até as saudades de casa.



Eu já sinto mesmo essa homesickness de que falavam nos workshops da Ok Estudante - ensinaram-nos que a maioria dos estudantes vive as primeiras semanas fora de casa em euforia mas que o segundo mês vem com uma depressão subtil e saudades de casa.. Pessoalmente, deparo-me inúmeras vezes a pensar que não há nada como a nossa casa, e não que não há ninguém melhor que a nossa família. E esta depressão é tramada, chega mesmo a fazer questionar alguém tão determinado se vale a pena este sacrifício. Mas depois passa, afinal, este é o meu lar nos próximos três anos. E o tempo voa.

Há dias em que viver fora é um murro no coração.
Mas ainda assim, não há nada mais satisfatório do que estar a oferecer toda esta montanha-russa de experiências e sentimentos à minha pessoa. E eu vou eternamente recomendar este gigantesco desafio que tanto pode desenvolver a mentalidade da nossa geração e das próximas!

Sintam-se livres de recorrer a mim para qualquer dúvida ou aconselhamento nas minhas redes sociais ou por email blogthepinkpunch@gmail.com

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