Trabalhei na gigante da moda e detestei

February 09, 2018
#Warning Toda a história e pormenores expostos neste post são meramente a minha infeliz experiência, não tendo como objetivo denegrir a imagem da marca em questão, visto que, ainda que com uma péssima impressão desta, estou sempre lá enfiada. A minha opinião pode ser absurdamente díspar da tua, e se por isso partilhas uma experiência diferente, olha, bom para ti.

Como nós adoramos uma lojinha imaculada.

Sempre tive a ideia pré-concebida de que trabalhar numa loja de roupa deveria ser o melhor emprego enquanto não-licenciada que poderia ter. A ideia de respirar a moda até no local de trabalho deixava-me super entusiasmada por poder dizer que, realmente, fazia algo de que gostava.

Digamos que, quando decidi definitivamente vir estudar para o Reino Unido, sabia bem para o que vinha. E não tinha medo disso. Sabia que, não tendo a carga financeira das propinas (financiadas pelo governo Inglês), os meus pais encarregar-se-iam de pagar a minha renda da casa - entre o custo das propinas e o custo da renda, venha o diabo e escolha - e ainda sobravam uns tostões suficientes para me ir alimentando. Mas tinha que trabalhar para pagar os meus luxos, que de luxos nada têm obviamente, mas atire a primeira pedra quem não gosta de dar um pulinho ao Starbucks de vez em quando, ou de comprar uma pecita de roupa, ou ir jantar fora com o namorado - e o dinheiro, caros amigos, esse não se multiplica se estivermos à espera disso.

Assim que cheguei a Inglaterra atirei-me de cabeça na busca por emprego, estava extremamente entusiasmada por começar a trabalhar e entreguei currículos em tudo o que era loja (ora lá está a ideia pré-concebida de que anteriormente falei). Acabaram por me chamar para duas entrevistas. Uma delas perdi por me atrasar e para ser sincera não me via muito tempo a fritar fish and chips naquele restaurante com um cheiro imundo perceptível a Km's de distância (eu ainda acreditava que tinha poder de escolha e não precisava de me sujeitar a qualquer coisa) mas entretanto recebi um e-mail para comparecer na Primark para uma entrevista. Entre fish and chips e a Primark, sabia perfeitamente o que queria.


A entrevista correu super bem! O diretor dos recursos humanos também não tinha origem britânica e não devia ser uma década mais velho que eu, foi muito terra-a-terra colocando-se sempre no meu lugar, sabendo que já passou pelo mesmo, deixando-me super à vontade, principalmente com o meu inglês, que saía a medo, bem típico de quem estava em Inglaterra há bem menos de um mês, mas que ele acabou por elogiar imenso e me fez sair de lá super confiante e entusiasmada pelo emprego.

Disse-me que o pessoal que lá trabalhava apesar de ser quase todo inglês era mesmo acessível e ainda me encorajou com o exemplo de uma espanhola que lá começou a trabalhar que não sabia uma palavra e que um mês depois era a rainha daquela porra toda. Quando saí de lá já esperava o melhor, que não se tardara a confirmar, pois recebi quase de imediato um email a chamarem-se para a minha induction, um dia de introdução ao trabalho, vá.

Quando cheguei nesse sábado às 9 da manhã, a sala de reuniões já estava cheia de gente que começava comigo nesse dia. Tinhamos meia dúzia de taças com doces ali no nosso meio e toda a manhã passou tranquilamente, com os chefes a introduzirem-nos às políticas da companhia, enquanto mascavam uma pastilha elástica e nós nos degustávamos com um chupa-chupa, bem informal né.

Fizeram-nos assistir vídeos extremamente loooongos onde explicavam todos os príncipios da marca - não há cá exploração infantil nem nada disso, pelo contrário, são super dados à ética e ainda gerem uma associação que ajuda as mulheres empregadas por eles nos países em desenvolvimento, prestando assistência médica, ensinando a ler, escrever, contar, e reeducando-as sobre higiene, sobre o corpo da mulher, etc.

Verdade ou mentira, não posso confirmar, o pouco que sei  é que parece impossível venderem T-shirts a 50 cêntimos, que não chegam nem para pagar a etiqueta, o que fará ao trabalhador que a confeciona. Quando a isso defendem que não investem dinheiro nenhum em publicidade e que para isso podem manter-se fiéis aos preços baixos (mas isto é toda uma outra história que merece ser aprofundada num futuro post).

Depois do almoço atribuiram-nos os cargos - acharam que eu tinha perfil para ser tills operator - algo como operadora de caixa. Se por um lado fiquei feliz por não ser o bichinho que ia ficar o dia todo enfiada no stockroom ou a dobrar roupa nos provadores, por outro lado fiquei ligeiramente assustada com o facto de não estar habituada à moeda deles. Mas não havia de ser nada.
A não ser o facto de acharem que depois de dez minutos a observar atentamente uma colega já estava pronta para experimentar sozinha. Deram-me assim um pontapé no rabinho - não literalmente - e lá estava eu sozinha numa caixa, sem saber distinguir as moedas inglesas (quem é que decidiu inventar moedas de 10p maiores que as de 20p, e moedas de 1p maiores do que as de 5p, no meu pais não há nada disso, descompliquem-se por favor)!

Não me procurem na foto porque não apareço. Despedi-me quando soube que
íriamos tirar foto de grupo, a farda era péssima!

Estava ali, literalmente abandonada à minha sorte, com uma fila enorme de clientes numa tarde de sábado pré-Natal, sem saber absolutamente nada do género eliminar produtos que os clientes desistiram de comprar quando viram a sua conta enorme a pagar, ou como abater a conta com cartões-presente, ou sem ter qualquer informação para poder esclarecer os clientes sobre poderem, ou não, trocar cuecas, ou maquilhagem, ou sabe-deus-o-quê.
Sorte a minha que apanho tudo assim muito rapidamente e não tardou muito a estar completamente à vontade com o procedimento, que se repetia vezes e vezes sem conta e as horas não passavam.

O trabalho não era cansativo, ainda que estivesse (normalmente) as 5h em pé, achava extremamente divertido o que fazia, estava a realizar o meu sonho de criança de trabalhar numa caixa, e vibrava com o bip!bip! que ouvia quando passava os produtos no scanner, e com o barulho da caixa a abrir.

No entanto, nem tudo é um mar de rosas, e eu não tardei a perceber que ali no meio de mil e um ingleses que lá trabalhavam, eu era a outsider, a ovelha negra digámos assim, eles não estavam dispostos a integrar-me no grupo. Reagiam às minhas dúvidas (extremamente normais) com risinhos em grupo, qualquer problema que houvesse eu era a primeira a ser apontada como culpada, entre tantos outros acontecimentos.. aprofundarei de seguida.

Durante o tempo em que trabalhei para a loja, estive sempre em part-time, ao fim-de-semana. Era um contrato de Natal e por isso só ia estar lá em Outubro, Novembro e Dezembro. Avisaram-nos de que o contrato acabava a 4 de Janeiro e que, caso gostassem muito de nós, poderiamos eventualmente ter a sorte de renovar contrato, mas para não termos muitas esperanças porque raramente acontecia. Alertaram-nos também, ao assinar o contrato, de que não havia cá horas extra, muito menos à semana - se o nosso contrato fosse de fim-de-semana não valia a pena implorarmos por mais horas porque o que havia era o que havia e tudo o que se alongasse a isso era ilegal.


Acontece que logo no segundo fim-de-semana me pediram para fazer horas extra durante a semana, e para ir trabalhar mais cedo ao domingo (ainda antes da loja abrir).
Eu sabia que claramente não ia fazer a minha função ao ir para lá antes da loja abrir e quando lá cheguei percebi todo o inferno em que me havia metido.

Imaginem o tamanho, movimentação e número de produtos em exposição de uma Primark portuguesa. Agora tripliquem. Isso é uma Primark inglesa. Não sei se vocês estão a ver o estado de confusão em que a loja fica depois de um dia aberta, do género: os óculos expostos completamente misturados, a secção das malas absurdamente em mau estado, com as correntes das malas todas embrulhadas em nós cegos, cestos e cestos de produtos de secções diferentes todos misturados. E nós tinhamos tempo cronometrado para deixar tudo isso impecável, ao mesmo tempo que expunhamos todos os novos produtos ainda encaixotados, isto tudo com pouco mais de uma hora e, de sublinhar,  quase às escuras, dado o facto das luzes da loja só acenderem quando a loja abrisse.

Neste dia, com compras acima das 2£ ofereciam um saco de ouro.

Não minto, perdi a conta aos momentos em que fiquei com as lágrimas nos olhos, com raiva das condições em que me havia sujeitado. Isto porque eu não tinha uma urgência em trabalhar. Vim para este país para estudar. Queria um simples part-time, normal, com pessoas porreiras, onde pudesse fazer o meu dinheirinho, voltar para casa feliz, sem dores de cabeça, com vontade de estudar, arrumar a casa. Os meus pais deixaram claro que eu não precisava de me sujeitar, que tenho muito tempo para conhecer o mundo mau do trabalho, que era bom encontrar um part-time que conseguisse conciliar com o resto mas que, acima de tudo, os estudos eram uma prioridade. Mas naquele momento eu não me estava a conseguir focar em nenhum dos dois, porque vivia os dias com a ansiedade.

Numa certa manhã de domingo, quando a loja abria às 11, pediram-me para ir às 8h. E assim compareci. A superior do meu piso, a senhora mais querida e compreensiva com quem convivi enquanto lá estive, encaminhou-me para a chefe do departamento dos acessórios que rapidamente me orientou a desempacotar caixas com malas e a expô-las. Azar meu, essa querida senhora, com os seus 30 anos, tinha um sotaque nativo inglês que pronunciado com o seu tom de voz baixo e monótono era quase imperceptível e não tardou a ir queixar-se à superior. Acontece que essa dita senhora, levada da breca, achava que eu não estava ali escondidinha no escurinho da loja, abaixada no chão a arrumar produtos, e então pintou todo um cenário negro sobre mim enquanto eu ouvia, e isso meus amores, isso eu percebi como se ela poesia portuguesa declarasse.

Porque eu não era inglesa, porque eu não percebia nada de inglês, porque ela não entendia o que eu estava a fazer na companhia, porque eu era lenta e porque eu era isto e aquilo. Se para mim já era difícil esconder o sorriso falso, daí em diante só lhe consegui olhar e responder realmente com uma cara de diabo. Se tivesse poder suficiente causava ali uma cena de crime, aniquilava-a desde mundo e do próximo.

Entretanto nessa manhã, e porque a sua primeira jogada não foi suficiente, colocou-me a fazer recovering, que é, para quem não sabe, arrumar toda a salgalhada que ia por aquele departamento fora. Malas com correntes tornaram-se um ódio, principalmente as mais fracas, que até estavam estragadas, mas que segundo eles, com um pequeno emendo, por um preço tão baixo certamente alguém as compraria. Sim! É provável que comprem algo na Primark e cheguem a casa e percebam que está estragado: tirem sempre a corrente de dentro da mala na loja e vejam se está em condições porque os funcionários são obrigados a disfarçar os defeitos nos produtos, neste caso, colocando as correntes dentro das malas.

Já todos vimos cenários mais clean na feira da Ladra.

Esse dia foi péssimo, mas a experiência não fica por aí!
Sabem que a história fica ainda melhor quando (suspense) fui acusada de roubo!

Como disse anteriormente, ninguém me esclareceu sobre a libra! Pior, ninguém me ensinou que haviam notas a ser descontinuadas, muito menos, as datas para isso.

Quando um funcionário terminava um turno numa caixa, tinha de chamar um supervisor para fazer a contagem do dinheiro na caixa e o funcionário tinha de assinar. Nesse dia o software das caixas não estava bem e por isso não dava para o funcionário trabalhar com o seu número de funcionário aberto, estavamos constantemente a precisar de trocar de caixa porque elas bloqueavam, e os supervisores nem sempre faziam o controlo do dinheiro em caixa quando eramos obrigados a trocar.

Sabe deus como, fui chamada a uma caixa e acusaram-me imediatamente de tirar dinheiro dela. Assim, sem argumentos para me culparem, nem nada.

Epá amigos, vamos com calma, eu sei que a bagatela que me pagam não chega para nada, mas daí a precisar de roubar ainda vai assim um saltinho à cara de pau que eu não tenho, e voltar.

Caí de paraquedas naquele acontecimento porque tinha a certeza absoluta de que tinha atendido no máximo 8 clientes naquela caixa e que tinham quase todos pago com cartão, logo, não havia margem para erros. Disseram-me que parte do dinheiro que faltava era porque as notas já não eram válidas porque haviam sido descontinuadas (desculpem lá?) mas que ainda assim faltava dinheiro.
Obviamente perguntei-lhes se tinham noção de que eu estava no Reino Unido há um mês e que ninguém neste mundo teve a decência de me explicar sobre o funcionamento do dinheiro, muito menos de quando deixava de ser aceite pela loja. Para concluir em grande drama, e a tremer ainda, pela arrogância com que me estavam a falar, perguntei "E agora querem o quê? Que pague?". Felizmente disseram que não porque se tivesse que pagar por algo que não usufruí, aí amigos o caso estava mal parado.

Ainda que tenha explicado que só atendi meia dúzia de clientes naquela caixa eles não acreditaram e daí em diante a atitude deles estava ainda pior para comigo. Mal sabiam eles que eu já estava a ficar saturada.

É óbvio que a situação foi tomando limites inaceitáveis, cada fim de semana novo era pior e depois da situação com o dinheiro, tornou-se uma aflição lidar com este.. ainda não tinha saído de casa e já tremia de ansiedade com medo de que voltasse a acontecer de novo! Eram horas seguidas de muito stress e de mau ambiente. Reivindicativa como me conheço, não iria admitir continuar muito mais tempo num sítio onde era escravizada e mal tratada por meia dúzia de tostões, visto que o ordenado também era péssimo. E assim me despedi desta experiência, um mês e pouco depois, com os bolsos nada cheios e a cabeça em água. Porque posso ter muitos defeitos, mas não me parece que seja saco de boxe para levar com a frustração do povo, digníssimos amigos.

Que nunca deixem o facto de serem de um país diferente, não falarem fluentemente ou não terem experiência, ser um fator para serem maltratados. Podem ser o pior funcionário de uma empresa que, ainda assim, ninguém tem o direito de vos tratar mal. Agressões verbais, tentativas de manipulação, escravidão, ameaças - nada disto é aceitável, quer seja no vosso local de trabalho, quer seja noutro local qualquer. Não se deixem calar por um mero ordenado, que na maioria nas vezes nem é suficiente para pagar a vossa alimentação, ou outras despesas essenciais. É importante denunciar, alertar as outras pessoas e evitar que mais alguém passe pelo mesmo! Trabalhar é quase que uma obrigação, não estivessemos nos maus dias em que hoje estamos, mas saúde mental é bem mais importante, e sem ela não há dinheiro que vos poupe de nada.

Não tenho nada contra a Primark...

Como cliente, já conheço a marca em Portugal desde os tempos em que era a novidade do Parque Nascente, nunca foi a minha loja predileta mas tinha sempre que dar lá um saltinho, ainda que saísse de mãos a abanar.
A Primark em Inglaterra tem uma essência diferente, não sei se é por estarmos aqui ao ladeco da ilha onde nasceu, se pela vasta escolha de artigos, ou se por as promoções loucas todo o ano.
Não há muito para se fazer em Southampton e como tal, sempre que vou à baixa, passo horas na loja a ver as pechinchas que por lá se encontram.

Mas como colaboradora, jamais. Foi uma experiência, no mínimo, traumatizante.
E se Deus quiser, nunca mais me voltarei a submeter a tal, não fiz mal a ninguém para merecer tamanho castigo.

Salvo seja.

Ó a ironia, porque o primeiro amor
não se esquece.


Um beijinho,
Bárbara Santos

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