Quem não é influencer é um ovo podre

October 01, 2018



Quando troquei o Wordpress e o Teens Also Wear Prada pelo Blogger e pelo The Pink Punch descobri que o meu email estava associado a uma conta que datava 2010. Pelo meio, uma foto minha do sétimo ano e um longo histórico de blogs -  um com um layout péssimo e um banner com o Justin Bieber (ai vergonha!), outro com um fundo leopardo e textos rosa a ditarem as tendências foram alguns deles. 
Descobri a Internet cedo, ainda antes de receber o meu primeiro portátil com sete anos. Paralelamente, já recebia elogios quanto às minhas composições nas aulas de português da primária e por isso não foi preciso muito para rapidamente mergulhar no mundo dos blogs. Na altura não sabia da existência de bloggers conhecidas, muito menos de bloggers que faziam daquilo profissão. Escrevia. Sabia que ninguém ia ler - porque ninguém lia na realidade! E lia outros blogs, como o meu. Comentava se realmente sentia que merecia elogiar. Seguia se realmente sentia que não queria perder nada! Não haviam outros interesses. 
Éramos uma mera comunidade que escrevia por gosto, porque gostávamos realmente daquilo. E falo disto com a maior sinceridade, gostava (e gosto) genuinamente de ter um blog - e sejamos realistas, não havia nessa altura muitas crianças de onze anos a perder tempo a escrever frequentemente para blogs quando existia todo um mundo de sites de jogos e brincadeiras ao ar livre - aos quais também dedicava tempo como é óbvio, mas a escrita e leitura aliados à Internet sempre foram muito importantes para mim.

Nos últimos anos o mundo dos blogs despoletou uma profissão - se tens um blog rentável podes fazer disso profissão. Aliás, se tens uma rede social que influencia o seu nicho, podes ser considerada uma influenciadora. 


Mas afinal, o que é uma influenciadora? É possível viver das redes sociais?


in·flu·en·ci·a·dor |ô| 
(influenciar + -dor)
adjectivo e substantivo masculino
Que ou quem influencia ou tem alguma espécie de influência sobre algo ou alguém (ex: tentaram reunir vários influenciadores para um debate).


Traduzido por miúdos, ser influenciador significa, através da presença nas redes sociais, inspirar e influenciar o público de alguma forma. Pode, efetivamente, ser lucrativo, dependendo de vários factores como o número de seguidores, o alcance, o engajamento com o seu público, e o fator chave - a influência perante decisões. Ao contrário do que se pensa, não é necessário milhões de seguidores para se ser considerado influenciador. Inicialmente, quando ainda nem existia este termo, as marcas consideravam influenciadores as celebridades, que realmente faziam produtos esgotar e traziam lucro às marcas. Mais tarde surgiram as youtubers mais conhecidas, como por exemplo a Zoella em Inglaterra. As marcas começaram a perceber que qualquer marca recomendada por ela esgotava, e por isso seria rentável apostar em pessoas que não as celebridades, mas ainda assim conhecidas, porque eram investimentos mais baratos e que ainda assim poderiam trazer mais lucro. 
Mais recentemente, estas youtubers, bloggers e Instagrammers com milhões de seguidores começaram a perceber o verdadeiro valor da sua publicidade e começaram a elevar os seus cachets, pelo que as marcas tiveram que começar a procurar outras opções e começaram a apostar em influenciadoras com alcance menor mas que ainda assim têm o dom da palavra. Assim sendo, a palavra influenciadora divide-se em duas categorias - macro-influenciadoras e micro-influenciadoras.
É possível sim viver das redes sociais. Cada vez mais influenciadoras deixam os empregos para se dedicarem a tempo inteiro a esta profissão, como por exemplo a Ana Garcia Martins que é uma das pessoas que sigo e mais admiro no mundo digital.


Até aqui tudo bem. 
Mas a palavra "influenciadora" tem muito que se diga.

Percebi a dimensão disto tudo quando criei a minha loja online e comecei a receber diariamente dezenas de mensagens com propostas duvidosas..


 "Envias-me um produto e eu faço review"

"Envias-me um produto e eu partilho nos Insta Stories"

"Pagas-me e eu partilho uma foto a usar uma peça também oferecida por ti, mas tenho que ser eu a escolher, tem de ser de qualquer valor e o custo por publicação é de 75€ porque tenho 2000 seguidores e o meu alcance é gigante"

Malta, isto é real! Recebo isto todos os dias! Literalmente como coloquei acima. E o pior? O pior não é a forma como me abordam - é evidente que quando se começa a ter algum trabalho investido é 100% OK contactar marcas, darmos-nos a conhecer, mas não assim.
Pessoalmente, já estive nas três posições - já contactei as marcas, já recebi contactos das marcas e agora sou a marca que contacto. E posso afirmar que, tudo o que está a acontecer está errado!
Não é correto contactar uma marca por mensagem direta, com linguagem informal, falar em números sem um Mídia Kit ou sem uma prova de que efetivamente temos os números que dizemos ter, sejam eles seguidores, comentários, visualizações num blog, sei lá! 
Diariamente recebo mensagens de miúdas de 3º ciclo que nem ainda sustentam uma conversa com os standards mínimos de português e pessoas com 100/200 seguidores e zero de engajamento a intitularem-se influenciadoras. Mas, honestamente, o pior não é isso! O pior são as pseudo-influencers!




O que é que eu considero uma pseudo-influencer?


Mais acima neste artigo falei da existência das micro e das macro-influencers. Já li imenso sobre este assunto e existem várias publicações que revelam dados diferentes mas as macro-influencers normalmente têm mais de 100k seguidores e as micro-influencers têm mais de 10k - há quem apoie que podem ter menos seguidores mas, pessoalmente, não creio que, por bom alcance que tenham, causem efetivamente lucro às marcas. Mas é também necessário destacar que uma boa influencer não se faz de números. É preciso, acima de tudo, saber o que estão a fazer, porque o estão a fazer e muita CREDIBILIDADE.

Saber vestir não é suficiente - até porque se vestem todas da mesma forma. Saber escrever não é suficiente - até porque metade do que aparece escrito foi "impingido" pelas marcas. Ter um lifestyle mais-ou-menos não é suficiente - porque na maioria das vezes escolhem-se os restaurantes e cafés pelo cenário para fotos  e não pelo menu.

Posts da Prozis, Daniel Wellington, Desenio, e cupões de desconto de mil e uma lojas em que as influenciadoras ganham por venda, patati patatá e outros afins, a sério, ninguém acredita nisso, nem as próprias influencers - então a pergunta é: porque o continuam a fazer? Ganham dinheiro? Ok talvez até sim, mas não existe um ponto sustentável em o fazer, porque nem o público irá dar atenção. Abro os stories e todas as influencers divulgam o mesmo - credibilidade? 0!
O alcance de que tanto se orgulham de ter não passa de comentários de pseudo-influencers que estas haviam comentado na última foto, é quase o mesmo que a hashtag #like4like, algo forçado, porque o nicho delas é realmente esse, um grupo de "amigas" que ambiciona um dia ser intitulado de influencers e então trocam comentários em todas as fotos. Público real? Não acredito que exista.


O que aprendi com o primeiro ano num curso de moda fez-me saber distinguir o que há de valor na indústria do que nada vale. Há muita porcaria a ser considerada algo, porque moda é uma arte abstrata - e por isso consumimos, porque "deve estar na moda". 
Admiro o trabalho de algumas pessoas mas não de muitas. Estou a estudar jornalismo e assim sendo devia seguir toda a gente da indústria, boas ou más influenciadoras, simplesmente para estar atenta ao que fazem e poder então saber fazer disso notícia. Mas honestamente sigo muito poucas, e ainda assim algumas dessas não passam de entretenimento para a espera pela consulta no dentista ou para a hora de almoço sem televisão. Como já referi acima, influenciador não significa números, outfits, fotos giras. Significa saber do que se fala, saber o que se está a fazer e saber usar o poder da influência para algo benéfico. 
Está a perder-se o valor desta profissão, que poderia ser efetivamente algo. Todas as miúdas sonham com isso, e pior, todas as miúdas se auto-intitulam influencers. E o público começa a ver isso com maus olhos.
Deixem as coisas fluir naturalmente, se o vosso valor é real, mais tarde ou mais cedo será reconhecido! Cuidem da forma como se apresentam a uma marca e façam-no somente se acreditaram que uma colaboração será benéfica para ambas as partes! 
Vistam-se como realmente querem e não com o que a Zara tem exposto na montra. 
Frequentam restaurantes onde a comida é melhor que o cenário.
Ser influencer ou blogger ou youtuber é fixe, mas não ser influencer ou blogger ou youtuber é ok! Algo nada fixe é tentarem forçar algo que não foi feito para ser! 



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